Livro retrata a vida em 11 cidades brasileiras onde se pedala muito, os motivos que as fazem ter tantos adeptos da bicicleta, hábitos e perfis de ciclistas

Um retrato sobre as cidades pequenas do país onde a cultura e o uso da bicicleta ainda se mantêm forte e resiliente é o mosaico de narrativas que compõem O Brasil que pedala. Com interesse em descobrir as motivações e curiosidades do cotidiano dos ciclistas dessas cidades, uma equipe de pesquisadores e autores vinculados a organizações civis que promovem a ciclomobilidade se debruçou sobre 11 cidades brasileiras de pequeno porte – com até 100 mil habitantes – para realizar entrevistas, contagens veiculares, pesquisa de perfil e caracterização de ciclistas, entre outros levantamentos para compor um mapeamento da mobilidade ativa nesses municípios.

Organizado por André Soares, da União de Ciclistas do Brasil, e Daniel Guth, da Aliança Bike, com prefácio de Clarisse Linke, do ITDP Brasil e apoio do Itaú Unibanco, o livro é a segunda produção da Parceria Editorial A Bicicleta no Brasil, composta pelas organizações Aliança Bike, Bicicleta para Todos, União de Ciclistas do Brasil e Bike Anjo. A parceria se formou para a produção de A Bicicleta no Brasil 2015, publicação que abordou a situação da mobilidade por bicicletas em dez capitais brasileiras.

Lançamento em Pedro Leopoldo

O livro será lançado na cidade no dia 10 de abril, quarta-feira, às 19h, na Praça Tancredo Neves, e contará com a presença dos autores do capítulo sobre Pedro Leopoldo, Amanda Corradi e Guilherme Tampieri, e outras atrações!

O evento contará com:

  • sessão de cinema com exibição inédita em Pedro Leopoldodo documentário Elo Perdido, de Renata Falzoni;
  • uma apresentação sobre o artigo;
  • um debate com os autores do livro e Paulo Netto, ciclista e militante pela mobilidade por bicicleta em Pedro Leopoldo;
  • sorteio de um exemplar do livro.

Diversidade e perfil de ciclistas

Há diversos pontos curiosos apresentados em cada eixo do livro, que começa com um cordel dedicado especialmente para a publicação. J. Ribamar dos Santos, o autor, que também é ciclista, vive em Gurupi (TO), uma das cidades retratadas.

Os resultados da pesquisa de perfil a partir das 2.208 entrevistas realizadas nas 11 cidades revelam o caráter inclusivo e humanitário da bicicleta. Praticamente dois terços dos ciclistas, nesta amostra de cidades pequenas, recebem entre zero e dois salários mínimos mensais. Em Pedro Leopoldo, 39% dos entrevistados recebiam até entre um e dois salários mínimos e 19% não tinham renda.

Um número expressivo de mulheres e crianças pedalam nestas cidades: em Ilha Solteira (SP), por exemplo, a presença feminina representa mais de 40% do total de ciclistas; já em Pedro Leopoldo, 39% das pessoas que pedalam são mulheres.

Pardos e negros somam 64,6% dos ciclistas nessas cidades; brancos são 31,67%. Comparando com o Censo 2010, há nesses municípios três vezes mais autodeclarantes como negros entre os ciclistas do que em relação a toda a população.

Retratar a cultura da bicicleta em todos os biomas brasileiros e mostrar que ela se adapta a qualquer tipo de terreno e condições sociais também foi um desafio contemplado em O Brasil que pedala. Cidades como Tarauacá (AC) no meio da Floresta Amazônica com 73% de viagens feitas apenas de bicicleta. Em Pedro Leopoldo, esse valor, conforme os últimos dados disponíveis (2012), o percentual total de viagens em bicicleta é de 8,6%, mas já foi de 17,2% em 2002.

As curtas e plenamente acessíveis distâncias são um ponto em comum entre as cidades. Para 63,6% dos entrevistados as viagens não superam 20 minutos de pedalada. Em Pedro Leopoldo, 55% das viagens não superam 14 minutos e 79 não passa dos 20 minutos.A

A pesquisa de perfil revela que mais de um terço (34,3%) deles começou a pedalar porque a bicicleta “é mais rápida e prática”. Para 27,3%, o motivo principal é a economia deste meio de transporte. Para outros 22% dos ciclistas, o principal motivo é a saúde.

Efeitos da motorização

Os números revelados nas pesquisas, no entanto, dão um gosto amargo no relato do cotidiano dessas cidades. Fica claro o efeito pernicioso de políticas públicas, que há décadas estimulam o aumento da presença de motores sobre duas ou quatro rodas nas ruas desses municípios –  seja por meio de desoneração, linhas de crédito, subsídios aos combustíveis e obras viárias. O Brasil que pedala chama a atenção para o aumento de motocicletas e motonetas: do total de emplacamentos destes veículos feitos entre 2001 e 2014, mais de 70% deles foram em municípios de pequeno porte. As regiões Norte e Nordeste viram a frota de motocicletas crescer 641% e 639%, respectivamente nesse período.

O livro é um alerta, mas também uma homenagem à cultura da bicicleta, que segue resiliente país afora.

Sobre quem escreveu o capítulo de Pedro Leopoldo

Amanda Corradi é arquiteta urbanista e integrante da BH em Ciclo

Guilherme Tampieri é gestor ambiental e integrante da BH em Ciclo

Instituição organizadora

A BH em Ciclo – Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte – é uma associação sem fins lucrativos formada por cidadãos que pedalam em Belo Horizonte, que compreendem a bicicleta como parte fundamental do sistema de mobilidade urbana local e que acreditam que as belo-horizontinas são capazes de se locomover de maneira mais sustentável pela cidade.