Confira abaixo como foi o III Fórum Social da Bicicleta para os membros da BH em Ciclo que estiveram em Curitiba de 12 a 16 de fevereiro de 2014.

Você deve estar pensando que a frase acima está equivocada. Não está. Embora saibamos que o nome correto é III Fórum Mundial da Bicicleta (FMB), o georreferenciamento dos presentes importa muito pouco diante do cenário de múltiplas interações sociais com ideias, formas e processos sendo vividos e compartilhados naqueles intensos cinco dias.

Gerado em 2011, em Porto Alegre, para marcar um ano do atropelamento em série de ciclistas que estavam na Massa Crítica da mesma cidade, o FMB cresceu a cada edição. Em Curitiba, o Fórum teve mais adeptos, atividades e legados.

Pedalar em Curitiba foi uma experiência nova para a maioria dos membros da BH em Ciclo presentes no evento. Usar as pistas exclusivas para o BRT, como os ciclistas locais, não nos pareceu estratégico. Acabamos por utilizar as vias e compartilhar a rua com os carros e (poucas) motos. A nós, Curitiba pareceu uma prévia do que Belo Horizonte há de ser daqui alguns anos: uma cidade com 3% de viagens sendo feitas de bicicleta.

Atualmente e infelizmente, não sabemos quantos % das viagens são feitas por bicicleta em BH, mas ver uma cidade com 3% é bastante animador. Em quase todas as ruas vimos ciclistas com roupas casuais e não esportivas.

III Forum Mundial da Bicicleta

O Fórum foi planejado e desenvolvido por ciclistas curitibanos que, através do financiamento coletivo, tiveram condições financeiras de trazerem diversas experiências, nacionais e internacionais, para serem compartilhadas com os presentes. Do Brasil, estiveram presentes pessoas que fizeram, e ainda fazem, muito para que a bicicleta tenha mais espaço na agenda política do país: André Soares, Daniel Guth, Odir Zuge, Renata Falzoni, Thiago Benicchio e outros tantos. O Fórum também contou com convidados internacionais: Chris Carlsson, Elly Blue, Mona Caron, Olga L. Sarmiento, entre outros.

Na abertura, estiveram presentes centenas de cidadãos, de várias partes do Brasil e do mundo, interessados em discutir a bicicleta, as diversas formas de ação para promoção do seu uso urbano e para socializar as diversas experiências vividas mundo afora.

A abertura

Depois dos ciclistas locais fazerem a introdução do evento, durante alguns minutos, aproximadamente quinze cidadãos protestaram contra o preço da tarifa de Curitiba com gritos de “Se a tarifa não baixar, Curitiba vai parar”. Enquanto o prefeito fazia seu pronunciamento, eles vaiaram e promoveram frases de apoio ao transporte como direito social. Após a abertura, Carlos Cadena Gaitan, de Medellín, ministrou uma palestra com o tema “Pedalando como uma forma de amor sustentável às nossas cidades”.

Em seguida, houve a festa da abertura em uma pizzaria local.

Os painéis

Um dos painéis que merece destaque foi “Bicicletas e mais além: o amadurecimento do movimento no Brasil e nos EUA”. Com apresentações de Thiago Benicchio, Elly Blue e Mona Caron. Em um Fórum sobre bicicletas, os participantes falaram sobre a importância de avançar no debate e compreender que a máquina, em si mesma, não representa muita coisa. Mais do que isso, o cicloativismo (bicicleta+pessoas) pode ser um meio de ultrapassar as formas tradicionais de atuação e ir mais além, em busca de uma cidade que compreenda as diferenças e se torne um espaço de viver juntos. Não todo mundo fazendo a mesma coisa, mas todos juntos no espaço da cidade.

Se este painel mostrava o amadurecimento do movimento cicloativista, no mesmo dia, durante a tarde, foi o momento de ouvir pessoas que “estavam lá quando tudo começou”. Assim foi o painel “O vibrante desafio das bicicletas: um convite irresistível”, com o Odir Zuge Junior, Chris Carlsson e Renata Falzoni. Foi o momento de se emocionar e perceber a consciência histórica dos participantes do FMB, escutar a história de pessoas que trabalharam em prol da bicicleta e inspiraram tantas e tantas outras.

Painel do ITDP

A convite do ITDP, Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, a BH em Ciclo participou de um painel para discutir a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) – Lei 12.587/12 – e a participação popular nos processos de desenvolvimento das diretrizes da PNMU.

Participaram do painel a diretora do ITDP Brasil, Clarisse Linke, a assessoria hurídica da ONG Terra de Direitos e o membro da BH em Ciclo, Guilherme Tampieri. Estiveram presentes mais de 40 pessoas.

Clarisse apresentou o ITDP Brasil, os princípios da mobilidade urbana sustentável, contextualizou o cenário de atuação no Brasil, falou dos desafios para aplicação da Lei 12.587 nas cidades e encerrou com a pergunta “Como participar?”. Dessa forma, Clarice fez a introdução à fala de Luana Coelho, que fez sua apresentação tendo como base os espaços institucionalizados e os criados pelos cidadãos para a participação popular e que podem influenciar projetos de mobilidade urbana de maneira positiva. Por fim, Guilherme Tampieri ilustrou, com o caso real de Belo Horizonte a importância da participação popular no processos de desenvolvimento de políticas e planos de mobilidade urbana na cidade. Ao final da fala do Guilherme, o debate foi aberto e diversas experiências foram compartilhadas.

Apresentação da metodologia usada pela BH em Ciclo para avaliação de ciclovias

Além do painel com o ITDP, a BH em Ciclo apresentou uma metodologia para avaliação de ciclovias e ciclofaixas usada pela Associação em Belo Horizonte. Cerca de 40 pessoas participaram da atividade e fizeram comentários que contribuíram para possíveis avanços na elaboração do relatório que a BH em Ciclo fará quando todas as ciclovias e ciclofaixas existentes na cidade até o presente momento forem avaliadas.

A eleição da União de Ciclistas do Brasil – UCB

A atividade que continha a eleição da UCB foi uma experiência de mais de seis horas de emoções, trocas, discordâncias e diálogos intensos. Ela estava prevista para as 16h com encerramento às 18h e começou com a fala do então presidente da UCB, Arturo Alcorta, em seguida do diretor-geral da Ciclocidade, Thiago Benicchio, e, por fim, do então secretário-executivo da UCB, André Geraldo Soares.

Apenas uma chapa havia se habilitado para a eleição. No entanto, o presidente dela não esteve presente e não enviou um procurador para ser eleito e/ou falar em seu nome. Várias pessoas se manifestaram contra a candidatura da chapa que não estava presente, ferindo o Estatuto da UCB. Após quase uma hora de debates, convergência e contraponto de opiniões, a eleição teve de ser adiada por conta do horário. Ela foi prorrogada para continuar, oficialmente, às 20h.

Entre os dois momentos oficiais da reunião, vários cidadãos, interessados em discutir a continuidade ou não da UCB, a possibilidade da eleição da chapa formada, e as variáveis que precisavam ser compreendidas para que a UCB tivesse um modelo de gestão compartilhado, colaborativo e horizontal, se reuniram no saguão do MON – Museu Oscar Niemeyer. A roda de conversa durou até as 20h, quando se deu o início do processo do segundo momento da reunião.

Sentados no chão do salão onde estava acontecendo o lançamento e venda de livros, os interessados na eleição da UCB continuaram o debate. A chapa que estava montada não foi aceita por não cumprir os requisitos do Estatuto da UCB. Durante o intervalo, uma nova chapa foi montada pelo, então, secretário-executivo da UCB, André Soares, Yuriê Baptista e Rodolfo Brandão. Os diretores da chapa apresentaram suas propostas aos presentes. A votação teve início e, com 10 votos favoráveis e uma abstenção, a nova chapa foi eleita.

A BH em Ciclo votou abstenção sobre a seguinte justificativa: “A BH em Ciclo se abstém do voto porque o processo de tomada de decisão da associação se dá de maneira coletiva entre os associados, e as quatro pessoas presentes (Guilherme, Thiago, Amanda e Augusto) não têm legitimidade para tomar esta decisão diante deste novo cenário com esta nova chapa. A BH em Ciclo, em momento algum, será contra a próxima gestão, a Associação apenas precisa consultar seus associados.”

Em seguida, o Coordenador Rodrigo Telles propôs uma discussão sobre a composição do Conselho Consultivo. Os presentes alertaram e defenderam a importância de se postergar essa decisão para que a mesma pudesse ter tempo de ser discutida entre todos os associados da UCB, através dos meios eletrônicos de comunicação.

O que mais rolou?

O Fórum contou com uma bicicletada especial, com centenas de pessoas, e encerramento no com direito a show no Largo da Ordem.

Durante quase todos os dias do Fórum aconteceu uma feira-livre. Estavam sendo vendidos de sanduíche vegetariano a bicicletas e também várias iniciativas ligadas ao cicloativismo estavam sendo apresentadas na feira. Vários outros eventos rolaram e deram vida ao Fórum. Veja aqui: http://forummundialdabici.org/

O legado de Curitiba para o mundo

Um patrimônio imaterial deixado pelo Fórum foi o estímulo à integração de mais ciclistas ao dia-a-dia da cidade, de forma a catalizar, estimular e e encorajar mais pessoas a usarem a bicicleta como meio de transporte. Legados como esse têm benefícios sociais enormes, conforme explicou o arquiteto alemão Lars Gemzøe, “está mais do que provado que há uma relação direta entre o número de ciclistas e a percepção de segurança no trânsito das cidades”. E, segundo ele, esses efeitos são exponenciais quando mais mulheres e crianças estão sobre duas rodas.

Por fim, aconteceu uma votação para a escolha da próxima cidade a receber o Fórum. Após horas de discussão, Medellín, na Colômbia, foi escolhida para ser a sede do próximo Fórum Mundial da Bicicleta. Esperamos que seja tão Social quanto esse.

Fotos:

https://drive.google.com/folderview?id=0BwdRv3NbeR8-Rk5RZFBtb0M3Nlk&usp=sharing

http://www.flickr.com/photos/bhemciclo/sets/72157641388575544/

*O texto acima é assinado por André Schetino, Amanda Corradi, Augusto Schmidt, Guilherme Tampieri e Thiago Rodrigues.