O ciclista André Schetino traduziu em palavras o sentimento que os ciclistas vêm tendo em Belo Horizonte: é possível pedalar na cidade.

Conjulgando diversos assuntos, quebrando tabus e exemplificando como o movimento ciclístico tem atuado em Belo Horizonte, André escreveu um texto que enche qualquer ciclista e cidadão interessado na mobilidade urbana da capital mineira de esperanças.

Leia o texto no blog Até onde deu para ir de bicicleta ou abaixo (retirado, na íntegra, do blog):

Sou nascido em Belo Horizonte, onde moro atualmente. Dos meus trinta e poucos anos de vida, a grande maioria foram vividos aqui (4 anos no Espírito Santo, outros 2 no Rio de Janeiro, pra amenizar o “vício de praia” que acomete os bons mineiros). Em todos esses anos, e especialmente nos últimos 13, quando passei a utilizar a bicicleta regularmente como meio de transporte, tenho visto algumas “verdades absolutas” da vida nessa cidade rolarem ladeira abaixo. E porque não dizer ladeira acima também.

“Essa é a ladeira da preguiça…”

Ah, as ladeiras de Belo Horizonte! Os amigos do Rio de Janeiro, quando vem me visitar, sempre se espantam. Na verdade nós chamamos de morros, mas pro carioca morro é outra coisa. Ladeira ou morro, fato é, que sempre disseram que eles eram o grande obstáculo para que o uso da bicicleta não fosse estimulado na cidade.

Há alguns anos atrás era até difícil dizer “Belo Horizonte e as bicicletas”. A voz embargava, gaguejava, pensava-se duas vezes. E logo surgiam os estudos, os especialistas, as pesquisas, todas condensadas e resumidas na seguinte frase que partia – dessa vez, sem titubear – da voz de mais um algoz das magrelas: “Belo Horizonte não possui o relevo propício para usar a bicicleta”.

O velho mimimi: “Belo Horizonte não possui relevo propício para usar a bicicleta”

Pronto. A frase decretava o fim da discussão. Mas por que o famoso “ali de mineiro”, onde o longe vira perto, nunca serviu para as bicicletas?

Só que havia um detalhe, uma constatação, talvez até um sentimento universal, que aflora em qualquer lugar por onde ande uma bicicleta. Seja no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, ou em qualquer lugar do mundo; seja no asfalto ou na terra,  morro acima ou morro abaixo:

Andar de bicicleta é bom demais da conta!

“Olha, mãe, sem as mãos!”

Recorro ao “mineirês” apenas para mostrar que nós, moradores de Belo Horizonte, que sempre gostamos de pedalar, assim o fizemos por todos esses anos. A despeito do discurso anti-bicicletas na cidade, pedalamos desde sempre. Quando a situação era desfavorável, o fazíamos de forma silenciosa. Mas agora, chegou a hora de fazer barulho.

Para que a bicicleta saísse dessa condição de “extra-terrestre” e começar a fazer seu filme na cidade, entraram em cena justamente elas, as ladeiras. Mas não na cidade propriamente dita, e sim, nas trilhas. O mountain bike sempre foi prática forte em BH e seu entorno. E eram muitos desses praticantes que também colocavam suas bikes no asfalto de Belo Horizonte durante os dias de semana. Além deles, trabalhadores, que por necessidade ou opção utilizam suas bicicletas como meio de transporte passaram a  enfrentar o trânsito da cidade proibida para as bicicletas.

Ciclista em BH: como os outros veem.

Junto a isso vieram outras ações. Grupos de pedal noturno, movimentos mundiais como a Massa Crítica, além dos meios de comunicação (especialmente a internet) que permitiram maior visibilidade e troca de experiências entre ciclistas de todo Brasil e do mundo alavancaram o uso da bicicleta em Belo Horizonte.

E por último, mas não menos importante, um movimento próprio de BH. Por aqui, as elites políticas que sempre dirigiram a cidade gostavam (e ainda gostam) de vender (literalmente) a ideia de que mineiro “adora receber em casa”, “é caseiro” e blá blá blá. Tudo isso pra não ver as praças e ruas ocupadas pela população (os bares e shoppings podem). Sim, são os mesmos que diziam que Belo Horizonte não era uma cidade para as bicicletas.

Depois de muito viver sob o tédio absoluto, abandonar a cidade a cada Carnaval, e cansados de ostentar o título de “bicho do mato”, eis que surge um outro grupo, formado por pessoas que gostam de se divertir e que queriam (e ainda querem) mudar a cara de Belo Horizonte. Não é de se estranhar que dentro dessa turma que quer “botar o bloco na rua” estejam muitos ciclistas!

Quem não tem mar, vai pra Praia da Estação, em BH.

Pronto! De forma bastante simplificada (imagine que tudo isso foi acontecendo ao mesmo tempo) está formado o grande caldo que está colocando cada vez mais bicicletas nas ruas de BH. E “de repente”, o que era uma grande verdade agora já não é mais.

Já encontramos muitas dobráveis, híbridas, urbanas e até algumas fixas, mas até hoje, as mountain bikes ainda são as bicicletas que mais caracterizam o ciclista urbano da cidade. Os grupos de ciclismo cresceram muito, e a noite de Belo Horizonte está repleta de bicicletas, de segunda a sexta-feira, seja com o RUT’s, do Mountain Bike BH, o Le Velo, Pedal da Madrugada e muitos outros ajuntamentos de ciclistas, felizmente já difíceis de serem contabilizados.

Galera do RUT’s no mirante das Mangabeiras. Foto: Vinícius Túlio

As novas pesquisas e estudos agora planejam 350 km de ciclovia, que pouco a pouco (bem pouco), vão sendo colocadas em seus devidos – e indevidos – lugares. A cidade acaba de ganhar uma associação de ciclistas urbanos com forte atuação junto aos órgãos públicos, a BH em Ciclo. Tem também o pessoal do Bike Anjo BH, sempre pronto para ajudar a colocar cada vez mais ciclistas nas ruas de forma segura e consciente.

Bike anjo Javert em ação. Foto: Bike Anjo BH

E o movimento não para por aí. A Massa Crítica vem acontecendo regularmente e crescendo o número de participantes a cada edição. E como quem pedala também sabe se divertir, movimentos como o Velódromo Raul Soares, a turma do Bike Polo e das bikes roda fixa (sim, de fixa em BH!) vão ganhando as ruas da cidade. Esse ano teve até bloco de Carnaval com bicicletas, o Bike Fantasy!

Massa… Crítica! Foto: Facebook Massa Crítica BH.

Mas e as ladeiras? Elas sumiram?

De forma alguma. Na verdade, ela nunca foram o problema. Não eram no passado, e não são hoje, quando as bicicletas confortáveis e cheias de marchas deixaram tudo mais fácil.

Que esse seja apenas o começo da ocupação de Belo Horizonte pelas bicicletas. Ciclistas ou não, queremos todos uma cidade menos careta, mais bonita, e melhor pra se viver.