Começamos hoje a divulgar os relatos sobre o Bicicultura 2017. O primeiro texto é da Bruna Caldeira, que participou de todos os dias do evento, e conta detalhadamente como foi essa experiência super intensa. Trocas e aprendizados talvez sejam os pontos principais de sua imersão!! Acompanhe o nosso site e veja a história de outros membros da BH em Ciclo em Recife!

QUINTA

8h-10h  Gestoras públicas de programas cicloviários: desafios e avanços

Começo a manhã participando de uma mesa em que quatro mulheres compartilharam suas experiências e  dificuldades como gestoras nos órgãos públicos e também em ser mulher em um país em que no ambiente corporativo e a predominância de cargos de coordenação são masculinos e existem resistências, veladas ou não, tanto a mulheres no poder quanto a políticas públicas voltadas à bicicleta. Cada município possui suas particularidades, alguns com as políticas cicloviárias mais avançadas (Fortaleza e Niterói), outros ainda lutando para implantar as bases (BH e Brasília). Percebi, no entanto que todos estão na luta e comemorando a cada conquista, apesar da angustiante incerteza em relação à continuidade dos projetos nas mudanças de gestão.

10h-12h  Oficina 1: A revolução vai pra rua – Escola de Ativismo

Assim que terminaram as conversas, entrei “de penetra” na oficina que já havia iniciado suas atividades, mas que ainda estava na metade de seu andamento. Orientada pela Escola de Ativismo, o conteúdo foi muito rico, mostrando diversos exemplos de ações diretas dotadas de criatividade e impacto, que atingem melhor os objetivos em comunicar mensagens importantes dos movimentos sociais, que fogem ao formato tradicional e de baixa eficiência em resultados práticos como as manifestações de parar o trânsito. Muita teoria, troca de ideias e referências sobre o assunto.

14h-16h  Palestra Magna 1: Momento de Opressão

Leo Maia e Carmen Tornquist, pelo viés da Sociologia Política, da Antropologia Social e das Ciências Humanas debateram e lançaram provocações sobre a bicicleta e as perspectivas e desafios diante do cenário político de perda de direitos que vêm ocorrendo no Brasil desde 2016, e os reflexos nesse contexto que impactam na ampliação das desigualdades na mobilidade. O que todos querem é que a bicicleta seja sempre utilizada como escolha consciente de seu usuário, em vez do resultado da não-alternativa de classes menos favorecidas, a ponto de tornarem-se instrumentos estigmatizados e desvalorizados por essas.

16h-18h  A Bicicleta e sua relação com grandes e pequenos centros urbanos

Assisti uma roda de conversa muito interessante, conhecendo diversos projetos do Brasil inteiro. Por exemplo, Beatriz Andrade, gestora pública nos programas para bicicleta em Fortaleza, mostrou os vários avanços no ciclismo urbano ocorridos na cidade nos últimos anos. Daniel Guth, de São Paulo, falou sobre a bicicleta nas cidades brasileiras de pequeno porte e Thales Borges, de Minas Gerais, demonstrou um pouco do universo da bicicleta no interior do Brasil, falando do regionalismo e do movimento cicloativista.

A descoberta mais interessante foi conhecer o projeto Pedivela, de Rafael Darrouy, do Espírito Santo, onde ele conseguiu criar uma integração ciclologística urbana em que utiliza da mão de obra de ciclistas que já trabalhavam como cargueiros para prestar serviços de entregas para o e-commerce, substituindo toda uma estrutura poluente feitas anteriormente por caminhões, gerando economia às empresas, mais agilidade nas entregas e uma redistribuição mais justa de renda, dando uma boa qualidade de vida financeira para pessoas que estavam às margens do sistema capitalista.

20h-21h  Pedalada para colar os adesivos “Veja a bici”

Um gostoso pedal, com música e bastantes ciclistas que estavam no evento, foi muito bom para irmos ambientando com as ruas e o ambiente de Recife Antigo. Foram distribuídos adesivos com o desenho de um pequeno ciclista, para serem colados em retrovisores de carros parados nas ruas durante o trajeto, para deixar aos motoristas a mensagem de sempre se alertarem aos cuidados com os ciclistas, uma ação proposta pelo coletivo “Desvelocidades”.

21h-00h  Festa de integração

O pedal terminou na galeria Mau Mau, que já era o espaço da primeira festa de integração do evento e foi boa para conhecer mais cicloativistas em um ambiente de descontração.

SEXTA

8h-10h  Oficina 5 – Ser Mulher e Ciclista na Cidade

Uma coisa muito comum nos movimentos cicloativistas são as discussões de pautas feministas. Nesse evento não foi diferente, com diversas situações voltadas para as mulheres, que representaram um pouco mais da metade das pessoas inscritas no evento. O tema é muito válido, afinal, ser ciclista é estar em uma posição de falta de privilégios sociais, e ser mulher é sofrer ainda mais opressões.

Eu decidi participar dessa oficina que era restrita a mulheres, pois além de trocar experiências com diversas ciclistas do Brasil e discutirmos sobre as dificuldades que o gênero proporciona ao ato de pedalar e pensarmos em forma de soluções, nós também realizamos pinturas de estêncil com frases de impacto feminista em camisetas, que foram doadas às participantes da atividade.

14h-16h  Atuação em rede

Durante a tarde uma roda de conversas bem interessante sobre a enorme importância que as atuações em rede representam hoje para se conquistar bons resultados no cicloativismo, contando inclusive com a participação de Carlos Campos, da BH em Ciclo, para apresentar sobre a experiência da  Campanha D+1 passo, seus processos e resultados nas eleições.

Ana Carolina Nunes, de São Paulo falou sobre a frente de mobilidade ativa de sua cidade. Diogo Batista, de João Pessoa, mostrou exemplos de intervenções urbanas para uma mobilidade urbana mais sustentável que ocorreram em seu entorno. Joanna Almeida, do Rio de Janeiro falou sobre as atuações possíveis entre plano estratégico e sociedade civil e Fernando Pereira, do Espírito Santo abordou as relações da sociedade civil organizada, poder público, redes sociais e a mudança de paradigma e percepção.

19-21h  Ciclo Passeio das Pontes

Terminei as atividades do dia realizando um agradável ciclo passeio atravessando as 5 pontes que interligam Recife Antigo às outras partes da ilha na companhia de cicloativistas do evento e com o apoio do grupo de pedal local k7. A cidade é toda plana, e com cenários belíssimos, muito boa para pedalar, a maior dificuldade foi lidar com os fortes ventos que emanam do litoral.

SÁBADO

10h-12h  Palestra magna 3: Momento de Rebelião

Nesta, que foi a última das palestras magnas, a intenção era abordar as formas de cicloativismo e possibilidades de ação e articulação com outras pautas. Peter Cox mostrou um estudo sobre as várias formas de cicloativismo que existem e até que ponto elas conseguem andar juntas ou não. Ele também acredita que o ativismo deve se unir à academia. Depois Áurea Carolina, a vereadora mais votada de Belo Horizonte, apresentou a experiência da Gabinetona e sua forma de estruturação. Ela acredita que as instituições são sempre mais atrasadas do que nossos processos de criatividade autônomos, mas que apesar disso, importam e é necessário nos apropriarmos delas e transformá-las a nosso favor, colocando uma governança diferente de controle, mas como energia a serviço da coletividade.


14h-16h  Sensibilização e Educação

Aglaíze Damasceno, do Ceará, apresentou o Projeto Ciclos, que envolve ciclismo, arte, cultura e cidade e Tássia Furtado, do Rio Grande do Sul, o BiciPonto móvel, que interage a comunidade ciclística com alguns comerciantes locais para ampliar uma estrutura de ferramentas de manutenção gratuita aos ciclistas. Erica Teles, da Bahia, contou como realizam o projeto Motorista vá de boa, em que educam os profissionais das empresas de ônibus para lidarem bem e saberem compartilhar o trânsito com as bicicletas. E no fim, Mateus Fonseca Lima, do Distrito Federal falou sobre a experiência da Viagem Brasília-Recife, que durou 19 dias e realizou algumas ações culturais durante o trajeto, como graffiti e stêncils, na companhia de mais dois amigos ciclistas e um cachorro.

16h-18h  Incidência na Educação Formal

Diversos projetos realizados no Brasil que inserem a bicicleta no ambiente escolar e as aproxima dos alunos já na educação infantil. Professores do Distrito Federal, Santa Catarina, Goiás, e Ceará compartilham suas histórias de luta, desafios e motivações e contam como fizeram para levar essas pautas para as escolas.

18h  Arrastão Bicicultura

Primeiro uma concentração na rua e em seguida um pedal, tudo animado ao som da Orquestra de Frevo. Tudo para fazer um “esquenta” para a festa que seria logo em seguida, no destino do pedal.

20h-01h  Festa com o Som Na Rural

Uma festa de rua empolgante, que se iniciou com a apresentação das músicas de saideira da Orquestra de Frevo e terminou com os DJs do Som na Rural na Rua da Aurora, à margem do rio Capibaribe e ao lado da emblemática escultura do caranguejo, que é uma homenagem ao Chico Science e ao Manguebeat, movimento de contracultura iniciado em Recife nos anos 90.

O projeto Som na Rural é realizado estrategicamente em um antigo veículo Ford 1969 modelo Rural customizado como cenário, estúdio móvel de sonorização e equipamento de intervenção urbana, que percorre o Brasil fazendo apresentações de bandas e artistas e discussões sobre temas ligados à cultura, comunicação e cidadania, levando a tradição e a cultura nordestina por onde passa.

À primeira vista, uma crítica pontual pode ser feita aqui, pelo fato do Som na Rural ter como instrumento o uso de um carro, e o evento ser focado nas bicicletas. Mas entendi que as propostas dos dois se unem no sentido de que o projeto também propõe uma forma alternativa de reocupação e humanização da cidade, discutindo e propondo novas formas de ocupação dos grandes centros de uma forma poética e universal através da música, algo muito comum na visão ciclística, mostrando que o mais importante é o compartilhamento, com o foco voltado ao lado humano das cidades.

DOMINGO

O último dia do Bicicultura se deu em um parque a céu aberto, com diversas atividades esportivas e feirinhas acontecendo.

10h-12h  Revisão Código de Trânsito Brasileiro

Uma revisão oficial nas leis está prevista para ser feita dentro de pouco tempo e é muito importante que possamos lutar por mudanças significativas para nós. Participei desse debate bem significativo sobre o que podemos mudar no Código de Trânsito Brasileiro para que as leis sejam mais justas e mais claras sobre os direitos do ciclistas. Discutimos ponto por ponto sobre os artigos que abordam a bicicleta e com a participação também de uma associação que cuida dos direitos dos pedestres, o debate foi ainda melhor.

13h-14h45  Discussões Livres

Machismo no cicloativismo – Precisamos falar sobre isso

Furando o sinal: por que seguir as regras de trânsito?

Cicloativismo tem cor e classe?

As discussões que seriam separadas acabaram se juntando devido ao número de participantes, e conversamos sobre os três temas, ouvindo as opiniões gerais sobre os assuntos.

No final dessas discussões, um evento marcante aconteceu para as mulheres do evento, que se reuniram todas juntas para decidir o que fazer sobre um caso de violência contra uma ciclista que aconteceu durante o Bicicultura, uma opressão vinda do diretor da associação de São Paulo, a Mobicidade, Daniel Guth. Foi decidido que as mulheres ciclistas não reconheciam a instituição enquanto ele ocupasse cargo de representante, e foi escrita uma nota de repúdio sobre os fatos para ser lida na plenária final.

15h-18h  Plenária Final

Foram lidas as notas e depois participei da votação da cidade sede para 2019. Votei em Brasília, mas acabou ganhando Maringá. Espero poder participar por lá também e conhecer mais esse pedacinho do Brasil. Tive que sair antes do fim para não perder o vôo de volta para casa.

Só posso dizer que foi uma experiência incrível ter participado desse evento e aguardo os próximos!